quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Universidades, Transdisciplinaridade e Experiência Humana

Ubiratan D'Ambrosio


Etnomatemática

Produção de 1999

THOT 73

UNIVERSIDADES, TRANSDISCIPLINARIDADE E EXPERIÊNCIA HUMANA

O PAPEL DAS UNIVERSIDADES NA SOCIEDADE MODERNA

"Estamos aqui para nos aconselharmos mutuamente. Devemos construir pontes espirituais e científicas que liguem as nações ao mundo."

Albert Einstein



A educação é uma estratégia desenvolvida pelo ser humano com duplo objetivo: estimular a vida em sociedade e acentuar a criatividade. Esse propósito tem sido alcançado por meio da transmissão do conhecimento acumulado pelas gerações anteriores e pela vivência de experiências desafiadoras. Ao longo da história, em todos os níveis educacionais e em todas as sociedades, percebem-se essas duas grandes metas. É claro que as características de cada sociedade determinam o estilo de educação adotado. Os sistemas de conhecimento predominantes determinam as práticas educacionais. Um grande número de estudos de caso ilustra isso.1

Estamos passando por grandes mudanças sociais. Os novos recursos de transporte, comunicações e coleta, estocagem e processamento de informações, trouxeram novas dimensões à tecnologia, desde a aurora da ciência moderna. Produziram reflexos evidentes nas características da moderna civilização, especialmente na vida urbana, nos modelos de propriedade, na produção e na economia2. Em conseqüência, novas percepções de eqüidade, segurança, reconhecimento e recompensa foram geradas e universalizadas nos tempos modernos.

A partir da postura colonial vigente na origem desses conceitos, movemo-nos a passos rápidos para ver a humanidade como uma totalidade e para o reconhecimento de uma raça humana, da qual a Terra é o lar. Buscamos nossa identidade como indivíduos que pertencem a uma espécie cujas muitas especificidades a diferenciam de todas as demais e habita um planeta que faz parte de um processo cósmico. Os indicadores dessas novas percepções são numerosos3. A educação moderna terá, necessariamente, de refleti-las. As universidades, em particular, estão fora de rumo em relação a essas mudanças recentes. Instituições universitárias criadas no modelo tradicional das colônias, e em nações cuja independência é recente, constituem indicadores dessa inadequação4.

Estamos em busca de novos modelos. Essa situação tem sido comum em qualquer estágio da humanidade em que surgiram novas formas de conhecimento5. Hoje, o caráter universal dos sistemas educacionais, a incorporação das tradições aos círculos individuais em todo o mundo, e a emergência de novas formas de produção, exigem uma nova organização desses locais de produção e transmissão de conhecimento. É claro que o conceito de conhecimento é essencial a qualquer proposta nessa direção. As considerações que se seguem refletem a abordagem transdisciplinar aplicada à compreensão de nós mesmos e do nosso lugar no cosmos.


TRANSDISCIPLINARIDADE

"Os mortos e os não-mortos são duas grandes divisões da sociedade primitiva, que parece quase apoiar-se mutuamente na relação dos explorados com as classes exploradoras (...) A imortalidade dos mortos é uma fantástica realidade."

Christopher Caldwell


É importante reconhecer a necessidade de apoio intelectual ao nosso comportamento que seja o resultado de uma diversidade de pontos de vista. Num momento de intensos e disseminados indicadores de nacionalismos e fundamentalismos nas relações humanas, torna-se necessária uma visão planetária6.

Como chegamos a este ponto? Podemos tentar algumas considerações etimológicas. Nas principais línguas indo-européias, a palavra "vida" tem duas raízes. Uma remonta ao latim (vie, vita, vida) e tem o significado do comportamento que, no século 11, foi identificado com um complexo sistema de evolução a partir de dois status, a vida e a morte. A outra concepção vem de leip, que tem a ver com o funcionamento do corpo (fígado, gordura). Em ambos há um senso da dinâmica da continuidade do indivíduo e da espécie — a sobrevivência. A busca de alimento e os mecanismos de reprodução estão impressos no código genético.

A ciência moderna e a tecnologia criaram quase tudo, menos a vida, com sua esplendorosa complexidade e reprodução — a continuidade não apenas do indivíduo, mas também do processo vital, no sentido mais amplo da expressão. A partir desses impulsos, intrínsecos ao ser vivo, nascem os comportamentos altruístico e ecológico que garantem a vida.. Como todo vivente, o Homo sapiens sapiens é orientado para a sobrevivência do indivíduo e da espécie. Esse impulso permeia toda a nossa existência.

Entretanto, por sermos únicos entre as espécies, somos dotados também de um senso de temporalidade: almejamos transcender nossa existência e viajar para antes do nascimento e para depois da morte, levados pela consciência e pela vontade. Estas estão presentes nas manifestações mais precoces do comportamento humano. Nossa busca do passado e do futuro levou-nos aos cultos e à espiritualidade — sob a forma de tradições e religiões — e às profecias, manifestadas nas artes e ciências. O conhecimento significa a capacidade adquirida de sobreviver e transcender.

Sob esse duplo impulso — para a sobrevivência e para a transcendência —, o comportamento humano tem evoluído na direção da aquisição do conhecimento. Nessa evolução são perceptíveis algumas distorções. Sua principal particularidade é a contradição com a preservação da vida, na própria essência de seu código: a continuidade por meio do indivíduo e da espécie. Faz parte do processo vital o comportamento altruístico e ecológico que leva à eliminação de indivíduos ou de espécies para que outros possam sobreviver. Na espécie humana, isso se faz sob a orientação da consciência e da vontade. A questão básica que levanto liga-se a esse aspecto, isto é, a eliminação de uns para que os outros possam prosseguir. Essa é a mais fundamental das questões relativas à moralidade individual, social e ambiental. Nessa multiplicidade coloca-se a ética.



O QUE SIGNIFICA A ÉTICA?

"O conhecimento do bem e do mal parece ser o objetivo de toda reflexão ética. Nesse conhecimento, o homem não entende a si mesmo na realidade do destino que lhe foi estabelecido em sua origem, mas em suas próprias possibilidades de ser bom ou mau."

Dietrich Bonhoeffer


O que significa um comportamento ético? De novo, um exercício etimológico nos mostra que os termos "ética", bem como ethos e ethno, são inter-relacionados. O reconhecimento do outro torna necessária uma ética. É importante que admitamos em nós mesmos os conflitos com o outro. É preciso admitir como legítima a alteridade do estranho. É fundamental reconhecer o outro nas sociedades e espécies competitivas. Sobrepujar o outro coincide com nossos impulsos para a sobrevivência e para a transcendência. O equilíbrio nessa concorrência é uma questão fundamental. Minhas reflexões são permeadas por esse tema básico.

Tem sido freqüente, no comportamento de nossas espécies, a aceitação de que algumas formas de vida têm mais valor do que outras, e que algumas não apenas são inúteis, mas em alguns casos ameaçadoras. Algumas espécies são perigosas — por isso, livremo-nos delas! Na mesma linha, alguns indivíduos de uma certa espécie são menos produtivos, dão-nos menos benefícios do que desejamos — portanto, fora com eles! Alguns nos aborrecem, como pernilongos no meio da noite. É preciso descartá-los, portanto! Esse raciocínio em cascata pode ser trazido para a nossa espécie: alguns indivíduos são menos produtivos e por isso devem ser excluídos. Alguns nos aborrecem e por isso devem ter o mesmo destino. Se usamos inseticidas contra os pernilongos que nos assediam, por que não usar guilhotinas, cadeiras elétricas e, hoje em dia, injeções letais, para eliminar esses desviantes que nos dão tanto trabalho?

Em suma, o comportamento humano tem sido crescentemente dominado pelo sentimento de que um indivíduo pode valer mais a pena do que outros. Essa é a origem do comportamento social e ambiental dos tempos atuais. Não vejo outra forma de fazer face à conduta social e ambiental do ser humano senão buscar valores e gerar uma ética apropriada, voltada para o restabelecimento do equilíbrio na concorrência entre a sobrevivência e a transcendência.

O conhecimento científico cresceu e continua crescendo, aparentemente sem limites. Revela-nos a mecânica do Universo e nos dá a capacidade de conhecer os componentes mais elementares da matéria e de tocar e moldar a evolução das formas vivas. Esse mesmo modo de pensar — o conhecimento científico — tem sido usado para convencer os indivíduos de que estão se aproximando da verdade absoluta. Além disso, gaba-se de um tal grau de precisão e autoconfiança que a mais humilde das pesquisas é substituída pela arrogância da certeza, que inibe a investigação e exalta o dogmatismo. Através da história, a maioria das distorções, na longa busca da humanidade pelo conhecimento, tem resultado da separação entre a ciência e as tradições.

Uma espécie de "neurose filosófica" tenta identificar e realçar contradições entre os conhecimentos tradicional e científico. O atributo de "racional" é reservado a este, de um modo que exclui com desprezo aquele. A responsabilidade ética foi "racionalizada", encerrada em códigos normativos, ou depreciativamente confinada ao domínio dos valores e tradições. O Renascimento consolidou novos modos de pensar, que surgiram nas civilizações antigas da área do Mediterrâneo, desenvolveram-se na Europa e foram impostos ao mundo por meio das grandes navegações.

A "missão civilizatória" do Ocidente, que começou há cerca de 500 anos, resultou em um modelo de sociedade dominado pela ciência e pela tecnologia, com sua conseqüente ordem econômica, social e política. Modos de produção e divisão do trabalho e novos conceitos de propriedade e riqueza estão intimamente relacionados com a filosofia subjacente, que os tornou possíveis. Na verdade, tudo isso foi proposto para justificar a conquista e a colonização. Nesse empenho, línguas, modos de pensar e trabalhar e maneiras de lidar com a propriedade e a saúde foram impostos através da Terra. A ciência e os valores ligados ao pensamento científico e racional foram freqüentemente usados para racionalizar variantes de exploração de seres humanos, no processo de estocagem de suprimentos agrícolas. Os conceitos de humanidade e de uma ética para o homem foram gradualmente removidos desse pensamento.

Esse modo de pensar, dominante desde o século 16, foi responsável por:

a. interpretação de diferenças entre seres humanos como estágios diversos na evolução das espécies;
b. explicação de necessidades materiais básicas não-satisfeitas pela falta de empenho ou preguiça, e interpretação da busca da satisfação de necessidades espirituais como falta de racionalidade científica;
c. interpretação da preservação do patrimônio natural e cultural como obstáculos ao progresso. Com efeito, o progresso é um conceito associado ao novo modelo de pensamento.

Todas essas características do pensamento moderno levaram a uma conduta vil. As ligações são claras:

a. com a arrogância;
b. com a indiferença e a desumanidade;
c. com um comportamento irresponsável.

Trata-se de pecados capitais, que podem causar a destruição de espécies inteiras. Violam a sabedoria natural e constituem a mais séria ameaça à extinção do Homo sapiens sapiens. Precisamos restaurar a complementaridade dialética entre teoria e prática. Contudo, caímos com freqüência na armadilha da fascinação com o discurso teórico, em prejuízo do reconhecimento da essência da prática. Eis a essência da transdisciplinaridade.



UMA NOVA ÉTICA

"O maior dos erros filosóficos é contar como filósofos apenas os propriamente ditos, quando na verdade todo ser humano molda a sua própria filosofia; e a razão pela qual eles não a proferem ou especificam na linguagem técnica da filosofia aceita, pode ser o sentimento de que sua filosofia permanece mais filosoficamente verdadeira quando não é declarada."

Paul Valéry


A espécie não pode sobreviver sem uma ética que contrabalance as características do pensamento moderno e apele para o simples e primário princípio de preservação da vida e da civilização na Terra. Chamo de ética da preservação aos seguintes princípios:

a. respeito ao outro apesar de todas as diferenças;

b. solidariedade para com o outro, na satisfação de suas necessidades básicas de sobrevivência e transcendência;

c. cooperação com o outro na preservação do patrimônio cultural e natural.

A civilização pode sobreviver sem uma ética planetária?


O COMPORTAMENTO HUMANO COMO AÇÃO


No breve espaço de tempo de sua presença neste planeta, o ser humano está ameaçado de extinção7 e, ao mesmo tempo, maravilhado por ver a si próprio como o centro de um processo. Proponho o entendimento do Homo sapiens sapiens como uma criatura em busca da sabedoria e do sublime.

O comportamento e a vida dos seres humanos são inseparáveis. A vida é a ação realizada pelo indivíduo na realidade e com ela. Trata-se de uma prática orientada por uma estratégia projetada por ele próprio como resultado de sua vontade, depois de ter processado informações vindas do mundo real. Entendo a realidade segundo a proposta de Basarab Nicolescu: "Uma realidade de interação ou de participação"8.

A vontade, somada ao processamento da informação, constitui a essência do comportamento livre e inteligente, que caracteriza nossa espécie e define nossa existência. Um indivíduo existe na medida em que reage a impulsos (informação) vindos da realidade e, de modo voluntário, processa-os e define suas estratégias de ação. A dinâmica do processo

... realidade - indivíduo - ação - realidade - indivíduo ...

é a mesma da vida. Todos nós, como seres vivos, estamos sujeitos a ela9. Graças a isso, somos responsáveis pela modificação da realidade. Até que ponto? Até o limite da nossa sanidade mental.

A ação se manifesta de várias formas. Há, por exemplo, a que leva à sobrevivência e à satisfação das necessidades comuns a todos os seres vivos. E há a que conduz à satisfação das necessidades — caracteristicamente humanas — de explicação, entendimento e criação. Em outras palavras, o homem age para transcender sua própria existência e projetar a si mesmo no passado e no futuro.

Ao refletir sobre o comportamento das espécies vivas, percebemos que existe uma sabedoria natural, que pode ser vista de dois modos: a) segundo leis que determinam um comportamento rigoroso, previsível e matematicamente preciso. Essa é a proposta dos antigos paradigmas; b) pela perspectiva da complexidade, que desafia suposições básicas de causa e efeito. Devemos reconhecer que a abordagem complexa ainda é inacessível ao nosso modo atual de entendimento do mundo.

A crença na primeira hipótese levou ao sucesso da abordagem reducionista. Se nos aprofundarmos no exame desse fenômeno, veremos que o campo de interesses se estreita cada vez mais, sob preceitos metodológicos específicos e limitados. Para evitar isso — e diante de nossa necessidade de buscar explicações globais —, apelamos para as abordagens multidisciplinares e interdisciplinares. Mas estas não são mais do que incursões recorrentes no desconhecido, com os mesmos (ou similares) instrumentos metodológicos, que desviam o foco para outras questões.

Não teremos sucesso em nossa busca de explicação se permanecermos no plano dos métodos clássicos da ciência e nos concentrarmos nas funções e em seus domínios e contradomínios — em outros termos, se restringirmos nossa análise ao binômio causa-efeito. Precisamos ir mais além, investigar as próprias categorias de análise e compreender as relações entre os objetos e suas dependências dentro de várias categorias. Trata-se de uma abordagem semelhante à que vem sendo chamada de análise functorial pelos matemáticos. Nossa proposta contempla uma análise da dinâmica da totalidade do processo.

Os indivíduos, as sociedades e a natureza se inter-relacionam segundo estratégias de sobrevivência. Deixamos em aberto a explicação dessas estratégias, seja por meio das leis precisas pelas quais a sociobiologia tenta entendê-las, seja por intermédio de um comportamento caótico ou sinérgico. O fato é que a sobrevivência é inerente às espécies vivas e o equilíbrio se mantém. Ocorrem modificações, quando eventualmente as espécies mudam.

Relações tais como o acasalamento e os arranjos societários são bem conhecidas entre indivíduos da mesma espécie, e as ações coletivas obedecem a modelos comportamentais ditados pela estrutura genética. Ao mesmo tempo, os indivíduos devem interagir com o seu ambiente e com as outras espécies, por meio da ação sobre a natureza em que estão imersos — mas como parte constituinte dela e não como meros predadores. Tais condutas são reguladas pelos princípios da psicologia animal, da sociobiologia e da ecologia.


DA SOBREVIVÊNCIA À TRANSCENDÊNCIA

Na abordagem disciplinar (ou, na melhor das hipóteses, interdisciplinar), domínios cognitivos como fisiologia, sociobiologia e biologia aproximam-se, formando um triângulo. No entanto, a visão global pede uma abordagem transdisciplinar. Esta leva à metáfora geométrica, na qual vemos o triângulo como a essência do fenômeno da vida. A quebra desse triângulo em cada um de seus lados levaria ao fim da vida no planeta. Por isso, chamo-o de triângulo da sobrevivência. O universo no qual o colocamos é, em nossa imagem metafórica, a realidade total e plana. Como no romance de Abbott11, investigaremos as três dimensões mais altas, onde encontraremos o Omni.

Na longa história do cosmos — que representa a realidade em seu todo — a vida surge relativamente tarde e apenas em uma parte diminuta. Desde então ela tem se manifestado por meio de uma multiplicidade de fenômenos. Outras formas de vida, em diferentes universos, poderiam provavelmente suscitar diferentes metáforas geométricas. Dificilmente seria possível conceber os mesmos princípios de fisiologia, sociobiologia e ecologia em relação a um possível equivalente extraterrestre de vida.

Nessa realidade metaforicamente plana surgiram, por criação ou evolução, os hominídeos, há cerca de 4,5 milhões de anos. Do Australopitecus ao Homo sapiens, e finalmente até a nossa própria espécie, outro triângulo se superpôs ao da sobrevivência, que entretanto continua a ser a essência do fenômeno a vida.

Quando o Homo sapiens surgiu, os instrumentos, as ferramentas e as técnicas desempenharam um importante papel nessas composições. As relações da nova espécie com a realidade natural — na qual ela estava imersa como parte e não como mero observador — não podem escapar ao modelo do triângulo de sobrevivência. Essa nova espécie apresentou outras características: um desenvolvimento especial do pescoço ou da cabeça, manifestado principalmente por uma disposição especial do ouvido interno, que possibilitou a posição ereta e permitiu um senso de observação mais agudo. Ou a diferenciação da parte superior da traquéia, que permitiu uma forma diferente de lidar com os sons, o que possibilitou um modo muito sofisticado de comunicação.

Essas peculiaridades, combinadas com o crescimento diferenciado do córtex cerebral, permitiram que a espécie tivesse um controle muito melhor do corpo, e também a capacidade de receber grandes quantidades de informações e processá-las por meio de uma memória enormemente desenvolvida. Somou-se a isso o desenvolvimento de uma forma criativa de comunicação — a linguagem — e o aparecimento de um senso de passado e futuro. Tais características, e o impulso para a sobrevivência, tornaram-se subordinados à inteligência e à vontade. Eis o Homo sapiens sapiens.

Essas peculiaridades superimpuseram ao triângulo da vida um outro, o triângulo da transcendência, responsável por novas intermediações entre os indivíduos, a natureza e as sociedades. Cada membro dessa nova espécie — o Homo sapiens sapiens —, que pode chamar a si mesmo de homem12, está, como qualquer ser vivo, em luta constante luta pela sobrevivência. Nesse processo, o ser humano desenvolve mediadores entre ele próprio, seus pares e a natureza: são os instrumentos, ferramentas, equipamentos, as técnicas e a comunicação. Alguns deles, com efeito, desfiguram o mundo natural13. Além do aglomerado de fatos naturais, a natureza agora exibe fatos novos, artefatos e mentefatos, produzidos pelos humanos. A realidade é assim modificada e ampliada.

Por meio dos sentidos — que ainda são pouco conhecidos e controlados pelo homem — os artefatos informam outros indivíduos, enquanto os mentefatos informam aquele que os produz. Nossos sentidos são vistos como capazes de reconhecer aquilo que se pode ser explicar como material. As vibrações, a luz, o som, as ondas ou partículas, são capazes de produzir sensações. As altas freqüências, porém, não são percebidas pelos sentidos humanos, mas o são pelo sentidos de outros animais14.

Cada indivíduo da espécie Homo sapiens sapiens é dotado de uma peculiaridade interna, que submete a luta pela sobrevivência individual e pela continuidade da espécie — características de todas as espécies vivas — a si mesmo e á sua vontade. Assim ele desenvolve uma nova capacidade, peculiar à sua espécie, que é o poder de decisão sobre sua conduta. Esse princípio (que é essencial), em diferentes tradições é chamado de espírito, alma, anima, carma etc.

A vontade gera a necessidade de explicar, entender e transcender a própria existência, inferir dos ancestrais e projetar sobre as gerações que virão. Dessa maneira, o ser humano adquire um senso de passado e futuro, o senso do tempo. O impulso de sobrevivência é, assim, associado ao de transcendência. Juntos eles compõem a essencialidade da vida humana. Comer, respirar e procriar assumem agora um outro significado. As pulsões puramente animais de sobrevivência, de alimentar-se e acasalar-se, são agora ligados ao impulso para a transcendência. Alimentar-se a acasalar-se são associados ao prazer e às emoções, mas também permeados por rituais.

A descoberta do outro media a relação entre o indivíduo e a sociedade. A busca do outro — um mero mecanismo da espécie, para os demais seres vivos — adquire uma nova dimensão com o homem. A busca e a descoberta do "tu" constituem o primeiro passo para transcendermos a nossa existência. O reconhecimento do "tu" e a busca por um "tu comum" leva naturalmente à criação de mitos e símbolos, tradições e normas, sabedoria e conhecimento. Leva á cultura, no sentido mais amplo da palavra. Os indivíduos se subordinam a essas categorias de conduta, que intermediam seus relacionamentos com seus semelhantes. Elas dominam as relações entre os indivíduos e a sociedade, bem como entre as sociedades a realidade em si mesma. A força orientadora para a sobrevivência das sociedades é assim modificada por fatores que resultam dessas mediações. Alguns exemplos são o trabalho e sua divisão, a propriedade e as estruturas de poder e hierarquia.

Essas novas intermediações constituem a essência do que se tornou conhecido como conhecimento — os matema. Essa circunstância transparece na aquisição de habilidades, capacidades, modos de fazer, explicar, entender — formas de lidar com as necessidades diárias de sobrevivência e transcendência. Manifesta-se por meio de distintos modos de comunicação, invenção de diferentes instrumentos, aceitação de diversos modos de auto-organização e divisão do trabalho. Grupos de indivíduos que vivem em uma sociedade, sujeitos a condições naturais específicas, dividem as mesmas especificidades, os mesmos matema.

Essas formas de comportamento são incorporadas ao conhecimento comum, que mantém juntos e operacionais grupos de pessoas, comunidades, sociedades. Desse modo a cultura se manifesta em diferentes modos e domínios, que estão obviamente inter-relacionados. São expressões culturais, tais como a linguagem, as práticas matemáticas, os sentimentos religiosos, a estrutura familiar, as roupas e os modelos comportamentais. Estão, é claro, ligadas à história dos grupos de indivíduos, comunidades e sociedades nas quais se desenvolveram.

É impossível evitar a diversidade das culturas. Uma comunidade maior divide-se sempre em variantes culturais. Cada uma tem sua própria história e responde de modo diferente aos mesmos estímulos. As relações entre as culturas são enriquecedoras e, ao mesmo tempo, desafiadoras. Como se sabe, as diferentes culturas que formam a humanidade são muitas vezes conflitantes. Os conflitos inter e intraculturais são inevitáveis. Conviver com eles é o principal desafio da dinâmica cultural e constitui o objetivo final da civilização.

A ESSÊNCIA DA HUMANIDADE

Discutirei agora o que significa ser humano, isto é, a essência do ser humano. O jogo entre o substantivo e o verbo — "ser" e "ser" — sintetiza essa discussão. A essência da humanidade é alcançada quando os dois estão juntos em relação simbiótica. Isso só pode ocorrer em uma dimensão superior à da realidade material bidimensional.

A estrela que resulta da superposição dos dois triângulos — o da sobrevivência e o da transcendência — é o símbolo da espécie. É o aspecto substantivo do Homo sapiens sapiens. A metáfora mostra que ele constitui a essência da espécie humana. Representa a realização, por essa espécie, de suas necessidades essenciais de sobrevivência e transcendência. Essa metáfora geométrica — a estrela da essencialidade — é um exemplo do que falei há poucos parágrafos. Tudo isso está imerso em uma realidade material, na qual a transcendência não pode ser satisfeita. Tal realidade é o presente, o momento em que estamos vivendo. Metaforicamente, é o universo bidimensional, o aqui-e-agora.

Um passo adiante, na direção da sabedoria total, pode fazer-nos alcançar outra dimensão. A espécie humana deu esse passo, que a diferenciou de todas as demais espécies vivas, e ele corresponde a um movimento rumo a outra dimensão. Não podemos alcançar o passado nem o futuro, mas somos dirigidos para eles. Tanto um quanto o outro, como comportamentos, ultrapassam a realidade e estão fora da bidimensionalidade do real. Penetrar nessa nova dimensão corresponde à consecução da espiritualidade: é alcançar o carma, a ultrapassagem da materialidade. O impulso que leva a ela é a essência da vontade. Assim, o homem só atinge a sua plenitude — só alcança a humanidade e toma posse de seu self — quando essa realidade tridimensional é realçada. Este é o meu conceito de aquisição do status total de ser humano.

Alcançar essa realidade tridimensional mais alta está além das capacidades de nossa percepção como espécie. Mas devemos buscá-la. Nosso objetivo, como indivíduos e como espécie, é alcançar a dimensão total de seres humanos. Sondamos o desconhecido e as dimensões mais altas, que são os domínios da onisciência, onipotência e onipresença.

"Porque vê sempre algo cada vez mais maravilhoso, o homem não deixa de olhar e de aprender."

Jakob Boehme

NOTAS E REFERÊNCIAS

1. A educação tribal é um exemplo.

2. Ver a importância da urbanização no Novo Mundo, no estudo de José Sala Catalá: Ciencia y técnica en la metropolización de América, Theatrum Machinae, Madrid, 1994. Nessa obra, o autor mostra que vida urbana é o principal suporte do conhecimento científico e tecnológico.

3. Entre esses, menciono a crescente abolição de necessidade de vistos e facilitações de residência, a proliferação de religiões catastrofistas, o uso de substitutos para as moedas locais, os jornais internacionais, os automóveis mundiais, os softwares padronizados e os currículos internacionais.

4. Ver meu estudo sobre o papel das universidades no desenvolvimento: Knowledge transfer and the universities: a policy dilemma, Integrated Technology Transfer, ed. Jacques Richardson, Lomond Books, Mont Lairy, 1979, pp. 37-43.

5. Podemos entender assim as academias gregas, os monastérios e as universidades medievais, a universidade moderna e as universidades subsidiadas pelo governo.

6. Mesmo em meu país, o Brasil, construído por estrangeiros que aqui chegaram, voluntariamente ou forçados, no século 16, para dominar e impor aos nativos modos alienígenas de explanação, entendimento e modos de lidar com a realidade, há uma tendência crescente para tratar com dureza os "desviantes". Os pretextos para eliminá-los, mesmo por meio da pena de morte, disseminam-se por todo o mundo.

7. Embora não queira ser catastrofista, não posso deixar de reconhecer os perigos que a natureza enfrenta — a humanidade em especial.

8. Basarab Nicolescu, La science, le sens et l´évolution. Essai sur Jakob Boehme, Éditions du Félin, Paris, 1988, p. 127.

9. Ver Ubiratan D’Ambrosio, Da realidade à ação (3ª edição), Summus Editorial, São Paulo, 1995.

10. Insano é alguém que se conforma inteiramente com a realidade, ou, por outro lado, que não aceita as suas próprias limitações.

11. Edwin A. Abbott, Flatland: a romance of many dimensions. New American Library, Nova York, 1984.

12. Poderia optar por "mulher" ou "criança" nesse momento, ou usar sempre "homem/mulher" ou "ele/ela", como faz a maioria dos autores. Não estou convencido de que esse artifício tenha algum efeito sobre os homens ou mulheres da espécie humana, a não ser o de exteriorizar, ou algumas vezes disfarçar, uma atitude ou comportamento interior de desprezo. Não hesito, em qualquer lugar e tempo, em expressar meu profundo respeito pelo outro sexo, e minha ativa solidariedade para com a luta das mulheres no sentido de corrigir toda uma história de discriminação e exploração. O respeito e a solidariedade pelo outro vão além do sexo.

13. Um certo número de casos de supostas comunicações mentais, à distância e depois da morte, tem sido relatado. Sejam elas fatos ou imposturas, fazem parte do imaginário humano. São explicadas como capacidades extra-sensoriais de certos indivíduos. São semelhantes ao que, há 200 anos, era aceito como explicação para comportamentos esquizóides.

14. Ver Basarab Nicolescu, op cit, p. 195.

AO LEITOR

Este artigo conduz uma mensagem de esperança em relação ao futuro da humanidade. Pago ônus de ser franco no conteúdo — amor é do que precisamos — e didático no estilo: todo indivíduo, do simplório ao intelectual sofisticado, tem a responsabilidade e os meios para alcançar a transcendência.

Ubiratan D’ambrosio é matemático, Professor Emérito da UNICAMP (São Paulo) e consultor da UNESCO e da Organizações dos Estados Americanos (OEA)

Outros textos você encontra no meu site: http://vello.sites.uol.com.br/ubi.htm
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2 comentários:

  1. Uauuuu!!!

    Estou eu, essa madrugada, a estudar mais um pouco sobre a relaçao Etnomatemática e ensino universitário, mas tudo que tinha era às mãos era "Os paradigmas da ciência e a sobrevivência da universidade" (D'Ambrosio,2009).

    Mas essa internet é danada mesmo e, na sede por saber mais, acabei encontrando essa preciosidade que desconhecia: o blog do professor Ubiratan.

    Adorei a ideia do blog, desse compartilhamento com o público de tantas reflexões e estudos para uma nova visão de ser humano e de mundo, que devem orientar com urgência os princípios da educação.

    No Brasil, sentimos facilmente, nas últimas décadas, o desenvolvimento de uma classe social de jovens, que não pôde frequentar as escolas, porque nela não foram "bem-vindos" e dela não foram "bem-idos" de volta à sociedade.

    No entanto, isso não inibe suas pulsões de sobrevivência e transcendência. E não encontrando seu lugar, nos ambientes sociais instituídos para a sua formação humana e sociocultural, encontrarão, sempre, seu lugar em outros espaços, às margens das redomas instiutcinalizadas movidas por diversos interesses, que não mais lhes interessam.

    Assim, a escola, por não conseguir envolver uma boa parcela da sociedade, acaba por expor toda a sociedade a problemas maiores.

    O resultado disso é o medo que temos enfrentado de contracenar com o outro, e de expor nossos filhos e netos (protegidos em suas redomas) a uma sociedade marcada pela violência.

    Realmente, não dá mais para adiar, na educação, a preocupação com questões mais amplas e a preparação crítica dos jovens para lidar com elas.

    Parabéns, professor Ubiratan, pelo blog!

    Olha a referência:
    D'AMBROSIO, Ubiratan. Transdisciplinaridade. 2. ed. São Paulo: Palas Athena, 2009.

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  2. Olá, boa noite!!!Assim como a pessoa do comentario anterior, estava aqui estudando um pouco mais sobre a etnomatematica e encontrei você, uma pessoa inteligentíssima e que esta dando base para nossos estudos. Sou Stella da cidade de Bom Despacho - MG e gostaria de parabeniza-lo pelo trabalho q nos faz perceber a matematica com outros olhos. Seu trabalho é de mta importancia para todos professores. Aproveitando, gostaria de saber algum tipo de oficina q o vc sugere para demonstrar a etnomatematica em sala de aula, precisamos apresentar na universidade dia 27/04/2011. Conto com sua colaboração para enriquercer ainda mais nosso trabalho e mostrar a todos como é gostoso aprender matematica. Obrigada. Stella Fernandes.
    stellafernandesc@yahoo.com.br

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Ubiratan D'Ambrosio - Poços de Caldas, 1 de julho de 1969